“EMOÇÃO NO BUZÃO NUMA SEGUNDA-FEIRA”
Eu odeio segundas-feiras. Desde que eu era criança. Odeio ainda mais quando estou atrasado para o trabalho, depois de esperar por quarenta e cinco minutos num fila, em pleno dia de verão, e você olhar para frente e constatar que você é o número sessenta e oito para entrar num ônibus que têm quarenta e oito lugares sentados. Ou seja, a viagem vai ser de pé.
Finalmente, depois de toda essa espera, e depois do meu banho ter ido para o saco e de os meus sovacos estarem encharcados de suor, desenhando aquela celebre mancha molhada na camisa branca, o ônibus parou e a gente entrou. “Gente” é puramente força da expressão. Parecia uma manada de elefantes fugindo desesperados de um rato branco de laboratório ônibus à dentro. Frases básicas como “com licença”, “me desculpa” ou um simples sorriso são substituídas por “olha por onde anda, idiota”, “sai que eu quero passar” ou “perdeu alguma coisa aqui pra ta olhando pra mim?”. Aí, todo mundo senta nos bancos disponíveis, sendo que os reservados para idosos e gestantes são ocupados por todos os passageiros que não são nem idosos e nem gestantes. E você acaba em pé, segurando numa barra presa ao teto que você nem tem idéia de quem foi que tocou antes – e é muito bom você nem pensar a respeito disso -, mas seguramente amparado por duas pessoas mal-encaradas de cada lado, olhando pra você com cara de que estão esperando serem assaltadas a qualquer momento; por um cara que tem uma barriga maior que a sua e a encosta nas suas costas – e, antes de mais nada, vai uma dica de sobrevivência num ônibus lotado: nunca olhe ou pense qual parte do corpo está encostada em você -, e a região mais baixo do seu abdômen prensada contra a parte de ferro dos bancos. Você terá um pouco se sorte de encostar no ombro de alguém e a pessoa não reagir violentamente quanto a essa aproximação.
Continuando esse maravilhoso início de dia, a melhor parte é quando o calor humano se aquece e o desodorante começa a vencer. Ah, isso pra quem usa desodorante, é claro. Ou, quando, perfumes nauseabundos de gases intestinais invadem o ar, fazendo com que alguém, muito ultrajado com o cheiro, se manifeste educadamente: “Aqui não é banheiro, seu porco, deixa pra cagar quando chegar.”
Mas fora isso, fora o atraso, fora o calor, e fora que todos os sinais de trânsito resolvem testar a sua paciência fechando a cada esquina, tudo ocorre normalmente como em toda segunda-feira.
Enquanto isso, meu amigo Pinto conversa comigo me dando sugestões do que dizer no trabalho quando a Dona Darci me perguntar o motivo do atraso. Ele me diz que eu deveria contar a verdade. Que eu acordei tarde por que tive motivo de insônia, peguei o ônibus lotado, o trânsito estava engarrafado, ou seja, as mesmas coisas que eu digo toda segunda-feira. Mas, no fundo, acho que isso não vai colar e ela vai me encher o saco todo o dia, aliás, como sempre. Podia dizer que o ônibus foi assaltado; ou que eu passei a noite no velório da avó da minha namorada; ou, que eu fui abduzido por alienígenas fêmeas sedentas por sexo selvagem e que passei uma noite em uma orgia intergalática. Gostei dessa idéia, vou anotar como desculpa se as outras não colarem.
Nesse momento, entre o desespero de chegar atrasado e o devaneio de estar com sorte e a Dona Darci chegar atrasada, percebo que a menina que está sentada no banco bem na frente da minha barriga, ou melhor, do meu abdômen dilatado, olha para mim com um olhar dos mais suspeitos. Um sorriso disfarçado, mas com uma ponta de malícia. “Caramba”, penso comigo mesmo, “será que eu vou ter sorte assim, logo numa segunda-feira?”. Ela é bonitinha. Deve ter uns vinte aninhos, no máximo. Loirinha de farmácia, cabelo em rabo de cavalo, magrinha, roupinha ajeitadinha, uma pasta com o nome de uma universidade e, logo abaixo, escrito “psicologia”. Ah, meu Pai, é muita sorte. Ainda bem que Você olhou para baixo, mais especificamente, pra mim. Uma psicóloga. E dizem que essas são as mais taradas e liberadas. Acho que eu nem vou mais para o emprego. Dane-se a Dona Darci. Ligo do celular e digo que eu to com uma diarréia daquelas, vou no posto de saúde e pego um atestado para abonar a falta e, por fim, convenço ela de ir lá no meu apartamento para uma tarde de “análise” comigo.
Então, o ônibus faz uma curva mais acentuada e o meu baixo ventre toca o ombro dela. Ela, simpaticamente, sorri quando eu peço desculpas. E vejo que ela não tira os olhos de mim. Uma senhora, de uns sessenta anos, começa a notar toda a ação. Isso mostra que a coisa já não é tão discreta quanto eu pensava. Mas, ela olha para mim e sorri simpaticamente. Será que é coisa do signo? Dizem que os escorpianos têm um certo carisma sexual latente. Será que o meu, despertou logo hoje? A senhora desvia o olhar para o lado. Um pouco intimidada pelo sorriso que eu lanço na tentativa de ser simpático. A menina continua firme, sentada, com o ombro no meu baixo ventre quase escondido pela minha barriga.
Meu amigo Pinto, percebendo a minha tendência ao crime, me fala para dar uma maneirada. Mas o que eu posso fazer? Subir no teto? Um cara que é dois de mim, em largura e altura se encostando em mim, o pior, cada vez mais, e eu tenho que fugir desse assédio. Discutimos e ele se cala para não entrarmos em atrito ali no ônibus.
Procuro olhar a paisagem que passa apressadamente pela janela, mas não consigo tirar os olhos da menina sentada no banco. Já nem tento mais disfarçar e ela também não. Essa cara de inocência faz com que as minhas idéias mais sacanas aflorem num grau que eu procuro controlar, mas eu nem sei se consigo disfarçar mais.
De repente, ela olha para mim e fala alguma coisa que eu não consigo ouvir direito. As pessoas conversando ao redor e o barulho infernal do ônibus abafam o que ela diz. Eu faço sinal de que eu não entendi. Ela se aproxima mais da minha barriga, digo, de mim e pede para que eu me abaixe para ela falar alguma coisa. Vi aquele olhar malicioso que toda mulher tem quando está tentando seduzir um homem e procurei me abaixar. Apesar de não ter espaço para respirar, a minha ansiedade faz com que eu me curve o máximo possível. Meu amigo Pinto, percebendo o desastre, protesta para que eu não faça isso, mas, numa situação dessas, quem é que quer ouvir conselhos. Ainda mais, com uma gata te dando mole. Ignorei totalmente. Tento me abaixar um pouco mais até sentir que uma coisa bate na minha bunda, e, pela consistência, espero que seja um celular. Levanto assustado a tempo de ver o cara com um sorriso estampado, dos mais maliciosos, no rosto. E, definitivamente, não é um celular que ele tem no bolso. Infeliz constatação.
Nesse momento, ouço um grito abafado. Olho para baixo para ver se o grito vinha de onde eu pensava que vinha, e conclui que sim. A moça estava com a cara enterrada na minha calça, mais precisamente, no meu zíper, gritando. E o que era pior, meu membro, ainda bem que coberto pela cueca branca samba-canção, saltado para fora, encostando despudoradamente no rosto dela. Não entendi o que estava acontecendo. O que era aquela situação toda.
Ouvi as pessoas se inclinando para frente, mesmo apertadas, para verem o que acontecia. Ouvi também, vindo lá de trás – “Ih, galera, ta rolando um boquetão la na frente”-. Vi quando a senhora ao lado da menina se levantou para auxiliar a outra. Opa, dessa eu não quero dar conta.
O cobrador gritou:
- Olha aí, vamos parar com essa sacanagem que esse é um ônibus de respeito.
Mas, uma mulher, não sei de onde, grita:
- Deixa de ser empata. Vamos lá, minha filha, manda ver aqui mesmo.
Eu só via a mocinha tentando se esquivar. Ela gritava e o rosto dela estava preso em alguma coisa, só que eu não entendia nada. Parecia dizer que alguma coisa estava presa na minha calça.
Só então, percebi que o brinco dela estava preso no fecho da minha calça, e, na tentativa desesperada de se livrar, ela tinha aberto o meu zíper e o meu membro tinha saltado para fora. Eu sabia que era muita sorte.
Larguei uma das mãos para ajudar, mas, quanto eu mais puxava ela, com o balanço do ônibus, ela enterrava a cara na minha calça. A galera, que estava um pouco longe, comemorava como se estivesse num jogo de futebol.
A moça, sentindo muita dor, gritava:
- Deixa que eu tiro! Deixa que eu tiro!
Todo mundo, em coro, pedia para deixar ela tirar. Parecia um final de campeonato brasileiro. E eu, com a cara mais vermelha que um pimentão, gritava para ela dizendo que eu ia tirar. Só que ela tinha que ter calma.
Depois, de muito esforço, conseguimos, em conjunto, tirar o brinco da orelha dela. E ela conseguiu respirar aliviada. Quando ela levantou o rosto, vermelho e suado, todo mundo entrou em delírio. Muitas obcenidades foram proferidas. Uns se dispunham a fazer o que eles achavam que a gente tinha acabado de fazer.
Ela, totalmente envergonhada, e visivelmente transtornada, vermelha de raiva, colérica no sentido real da palavra, olha para mim e me fuzila.Pega a bolsa, aperta contra o corpo e se levanta apertando o botão que sinaliza o pedido de parada. Olha para mim, com quem quer matar uma pessoa sem pensar nas conseqüências e fala:
- Da próxima vez, seu imbecil, fecha a calça antes de sair de casa.
E passa por todo mundo como um touro descontrolado.
Aí, sim, caiu a ficha. Ela estava querendo me dizer que eu estava com a calça aberta. E o que é pior, passou a maior vergonha por tentar ser gentil.E deu o azar de ficar com o brinco preso no meu zíper.
Num ato de moralidade e generosidade, resolvi descer, mesmo sob os protestos mais furiosos do meu amigo Pinto, e, não vou negar, com segundas e terceiras intenções, eu fui atrás dela. A tempo de ver que o cara que estava atrás de mim piscou um dos olhos com uma cara mais safada que a anterior. Não vou negar, que instintivamente, olhei para baixo e vi o tamanho do “celular” que me cutucava por trás e me apavorei.
Quando eu desci, ela já caminhava apressada e longe. Percebi que o brinco dela ainda estava preso no meu fecho e eu tentei, em vão, tirá-lo de lá. Mesmo assim, eu gritei:
- Espera, tenho uma coisa para te dar – ainda tentando tirar o brinco do zíper.
Ela, reconhecendo a minha voz, pára, olha para trás e me fita com uma expressão horrorizada e sai correndo e gritando:
- Se afasta de mim, seu tarado. Vou chamar a polícia.
Ela desapareceu em meio a multidão.
Fiquei eu lá, parado, com o zíper aberto e com um brinco preso a ele.
Olhei para o relógio e vi que estava muito mais atrasado que antes. E que teria que esperar por outro ônibus para chegar ao trabalho.
Dessa vez, acho que eu vou usar a desculpa da abdução por alienígenas sedentas por sexo. Quem sabe, de tão absurda, não cole.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
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